Aos leitores que ainda insistem em visitar esse blog jogado às traças, um aviso: o "um viaduto no lugar do coreto" está passando por mudanças, desde o layout (você já deve ter notado a diferença, não?) até o conteúdo. Se antes eu estava mais atento às mudanças ocorridas nos lugares, de forma geral, agora pretendo me dedicar a um lugar em especial, bem conhecido de todos e que me fascina: a cidade. Afinal de contas, pensar a cidade é um exercício que remete à reflexão sobre nós mesmos, uma vez que, todos os dias, construímos essa cidade. Os textos antigos, muitos deles condizentes com a nova proposta do blog, continuarão por aqui, no mesmo endereço. Em breve, voltarei para mudar uma ou outra coisa e, claro, postar novidades. Até mais.
Registrar é preciso, vivenciar não é preciso. Essa é a idéia que parece dominar o cotidiano das pessoas no atual momento da informação. Assim, os nossos olhos parecem obsoletos frente às telas digitais das máquinas fotográficas e dos celulares disseminados em nosso cotidiano. Um filme de Adriano Rangel e Jackline Almeida. Selecionado para exibição no site do Festival do Minuto - Tema Livre.
Mudar não se trata simplesmente de deixar lugares para trás, mas, ao contrário, de carregar na bagagem os lugares por onde já estivemos. Quando digo lugar, não estou me referindo apenas aos objetos que dele fazem parte - casas, ruas, montanhas. Mais do que isso tudo, o lugar é a expressão da vida, das nossas ações, dos nossos sentimentos e idéias acerca do mundo e de nós mesmos. Os objetos são as formas visíveis das nossas ações.
Um turista carrega consigo o seu lugar de origem. Exemplo disso são as casas de veraneio, com muros altos, alarmes de segurança, cercas elétricas, reproduzindo o modo de vida das grandes cidades em lugares antes pacatos. Há um jeito de se fazer os lugares que é inerente às nossas experiências territoriais.
O lugar não é tão e só o palco da vida. É, em contrapartida, a vida que produz o lugar. A cada instante, numa despretensiosa caminhada pelo quarteirão, estamos fazendo o lugar. E mudar de lugar implica em mudar nós mesmos e, além disso, transformar também o lugar de destino.
O mapa temático acima evidencia a recente disseminação global do novo vírus H1N1, causador da gripe suína. Em poucas semanas, a doença alastrou-se da América do Norte, de onde surgiu, para as Américas Central e do Sul, Europa e Ásia. Há casos suspeitos em todos os continentes do globo, indicados pelo ícone com o sinal de interrogação. Os ícones pretos representam os locais onde a doença matou pessoas e os vermelhos os países com casos confirmados. Até hoje, mais de mil pessoas em 20 países já contraíram a doença, sendo que 27 delas perderam a vida, 26 só no México, onde foi descoberto o primeiro caso desse novo tipo de gripe. A propagação mundial da doença coincide com a frequência das linhas aéreas que conectam o México a outros países, haja vista a grande quantidade de casos confirmados na Europa, destino de grande parte dos vôos internacionais oriundos da capital mexicana. Além de mercadorias, a globalização facilita a disseminação de enfermidades endêmicas, outrora confinadas a territórios restritos. O mapa realça o vazio no continente africano, inclusive na África setentrional, mais próxima dos países europeus contaminados pela gripe suína. É curioso notar que, salvo o entorno do México, a doença avançou principalmente sobre os países mais ricos, justamente aqueles que concentram a maior parcela de fluxos do planeta. Por outro lado, a carência de condições adequadas de saúde pública nos países africanos pode ocultar o avanço da epidemia no continente, uma vez que, ao contrário dos que moram em países ricos, os habitantes dos países empobrecidos, muitas vezes, morrem sem qualquer assistência médica, vitimados por causas não apuradas. É preciso saber enxergar os lugares "fora do mapa", pois a cartografia se faz, sobretudo, por meio da informação; e, como reza o ditado, informação é poder.
Inauguração do Monumento a Ramos de Azevedo, em 1934, em frente à Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Foi Andreas Huyssen quem citou a frase cunhada por Musil - que intitula este "post" - para expressar a relação entre monumento e esquecimento. Segundo o autor, "a permanência prometida pela pedra do monumento está sempre erguida sobre a areia movediça". O Monumento a Ramos de Azevedo, de 1934, é um bom exemplo de como o significado e o propósito originais de uma obra podem ser erodidos pela passagem do tempo. O conjunto escultórico de 13 metros de comprimento por 15 metros de altura foi instalado em frente a um dos mais importantes edifícios projetados por Ramos de Azevedo, a Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 1934, em homenagem póstuma. Contudo, no final da década de 1960, o monumento cedeu lugar a uma larga avenida para os automóveis e, sob críticas, foi transferido para a cidade universitária, onde encontra-se até hoje, próximo à Escola Politécnica. A re-significação do patrimônio histórico e cultural e os seus desdobramentos na produção da memória social estabelecem uma forte relação com os conflitos de interesses presentes no espaço público. Em outras palavras, na atual concepção de espaço público, um monumento não pode ficar no meio do caminho dos carros. Assim, confinam-se pessoas em condomínios e monumentos em museus (ou em universidades, tanto faz) e celebra-se a cidade construída para a produção facilitada de riqueza.
Monumento a Ramos de Azevedo confinado no interior dos muros da Universidade de São Paulo.
Vivenciar não é preciso; registrar é preciso. Essa é a idéia que parece dominar o cotidiano das pessoas no atual momento da informação. Assim, os nossos olhos parecem obsoletos frente às telas digitais das máquinas fotográficas e dos celulares disseminados por todas as classes sociais. O mesmo ocorre com a nossa memória, cada vez mais em desuso e substituída por cartões de memória digitais. Da restrita circulação dos ultrapassados álbuns de fotografia, passamos rapidamente para a proliferação de informações produzidas de forma cada vez mais dispersa, de modo que as nossas experiências podem ser compartilhadas com mais pessoas, sejam elas conhecidas ou completamente estranhas. Certamente, você já teve a vista atrapalhada por alguém tentando registrar algo que você insiste em ver apenas com os olhos. Não se trata aqui de condenar os recursos visuais, longe disso. Ao contrário, pretende-se conferir importância ao olhar, como forma também de refletir sobre o registro de uma determinada experiência, de brincar com as imagens junto com as nossas sensações. Se o lugar e a experiência são banalizados, banal será também a imagem. Na primeira vez que visito um lugar, evito levar a máquina fotográfica. No atual momento em que todos somos constantemente vigiados, o fato de não registrar algum acontecimento que, há pouco tempo atrás, bastaria a oralidade para contar, é um ato tido como lamentável. De amantes do mundo a cinegrafistas amadores, o lugar vai perdendo o sentido de ser.
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Mais um tempo de ausência e mais uma promessa de voltar por aqui semanalmente, assim como eu gostaria de ter feito.
Foram 4 meses sem escrever no blog. Eu explico: tive que empenhar o meu tempo na redação da monografia e em outros projetos. Faltou tempo, assim como acontece com um monte de coisas legais que a gente deixa de fazer. De repente, estamos mergulhados na rotina e o tempo escorre entre os dedos.
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Há dois dias, Márcia, como de costume, passava pela Avenida Paulista com a sua bicicleta rumo ao trabalho. Em janeiro, mês de férias para alguns, as ruas de São Paulo estão um pouco menos movimentadas, o que não significa que o trânsito seja bom. Pára-se menos nos engarrafamentos, corre-se mais contra o tempo. Diferente de Márcia, fui ao trabalho de ônibus. No caminho para a Avenida Paulista, motorista e cobrador conversavam entre si. Ambos estavam preocupados com o horário de chegada no ponto final. Então, escutei o cobrador recomendar ao motorista, literalmente: "na volta, a gente chuta o pau para chegar mais cedo". Horas depois, já no trabalho, li uma reportagem na internet sobre um acidente entre um ônibus e uma ciclista. Márcia estava pedalando próximo ao meio fio, quando um motorista apressado resolveu ultrapassa-la violentamente. A manobra mal feita e ilegal fez com que o guidão da bicicleta fosse tocado pelo ônibus, derrubando Márcia que, sem ter o que fazer, teve a sua cabeça esmagada pelas rodas do veículo. Márcia Regina de Andrade Prado, 40 anos, não é a primeira e, lamentavelmente, não será a última a ser assassinada pelo trânsito de São Paulo. Circular é preciso, viver não é preciso. As ideologias responsáveis por políticas públicas mal feitas são capazes de matar. Em São Paulo, o trânsito mata mais do que a AIDS, conforme apurou recentemente o jornal Estado de São Paulo.
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Faz algum tempo que a amiga Gleice enviou a foto aqui publicada acompanhada do seguinte comentário:
"A gente corre, se acotovela, se atropela. E se pára um minuto paraperceber a cidade dá de cara com a insanidade e a poesia. As mesmas linhas fazem desenhos diferentes e a luz dá ao caminho de todo dia novos tons - quando a gente deixa de correr contra o tempo e o aproveita sem deixar a vida escapar."
Por quantas catracas você passa todos os dias? Faz pouco tempo que fiz esta pergunta em um dos textos do blog. No entanto, é preciso dizer que a ausência de catracas não implica em inexistência de restrições de acesso. O mesmo pode ser dito sobre os muros, cercas e grades que povoam a cidade. Um monumento ofuscado por grades de ferro ou uma flor cercada por arames entrelaçados são tão inacessíveis quanto uma praça sem bancos ou um shopping center com as suas portas abertas. No documentário "Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá", o diretor Sílvio Tendler, na prática do seu cinema de colagem, traz uma cena capaz de exemplificar o que quero dizer. Enquanto um grupo de turistas estrangeiros vai em busca do exótico numa das maiores favelas do Brasil, um outro grupo, formado por moradores da favela, vai passear pela primeira vez num shopping center. Ao passo que os primeiros adentram casas alheias e especulam sem constrangimentos sobre a vida dos moradores, os segundos sofrem preconceitos até mesmo no caminho para o shopping (assista o vídeo publicado aqui). Desde o elevador social até a segregação espacial que empurra os empobrecidos para as favelas, casos de discriminação ocorrem cotidianamente, muitas vezes sem a necessidade de muros, como no caso dos jovens da periferia de Curitiba impedidos de frequentar o shopping Palladium, como descreve esta reportagem. Cada vez mais, os obstáculos físicos tornam-se obsoletos frente ao discurso dos sujeitos sociais hegemônicos.
Tão inerte quanto as árvores da rua é este carro. As estações do ano vem e vão, os guapuruvus florescem e colorem a rua com flores amarelas e ele permanece ali, estagnado, sujeito às intempéries. Nas estiagens, os vidros empoeirados estampam desde declarações de amor a desabafos enfurecidos. Faz algumas semanas que um dos faróis dianteiros aparaceu quebrado. Fora esta pobre rotina, nada aconteceu com o carro desde que moro nesta rua, há cerca de quatro anos. Jamais vi alguém ligar o motor, aproximar-se sequer, tampouco reclamar do seu abandono. Afinal, há quantos anos este carro está esquecido neste lugar? Fiz esta pergunta a funcionários e moradores mais antigos e descobri que o velho Santana faz parte da paisagem há mais de dez anos! O curioso é que ele só é notado pelos moradores quando falta vaga para estacionar na rua, que costuma ser movimentada durante a semana. Fora esta situação, ninguém se incomoda com tamanho descaso. Nas manhãs durante as primaveras, com a rua pintada de amarelo, o andar apressado é o mesmo. Os guapuruvus, assim como o carro abandonado, estão no lugar da passagem, do desencontro. Tanto faz, portanto, se alguém decide se apropriar de um espaço público ou se os guapuruvus amanhecessem tombados. O lugar enquanto espaço da vida tem no velho Santana abandonado a sua lápide.
A paisagem é característica do polígono das secas brasileiro, porém, trata-se da região de Itu, situada nos limites entre o Planalto Atlântico e a Depressão Periférica do estado de São Paulo, próxima à capital paulista. Cenários bizarros como este poderiam ser encontrados, também, em outras regiões do Brasil, como nas paredes do Pão de Açúcar (Rio de Janeiro) e até mesmo na Amazônia Central e no entorno do Pantanal Mato-grossense. São lugares que contam a história das condições físicas do passado, entre 23000 e 13000 anos antes do presente, quando o nível do mar estava a menos 100 metros que hoje e a fachada atlântica do Sul e Sudeste, banhada na época por correntes frias, sofreu um período de menos calor e maior semi-aridez, conforme explicou o geógrafo Aziz Ab´Sáber. Esta fantástica ampliação dos climas secos fez com que faixas de florestas permanecessem e se fragmentassem enquanto caatingas se estendiam. Formaram-se, então, os redutos de cactáceas que podem ser constatados hoje em subespaços extra-sertanejos. Estes lugares extraordinários, de grande importância científica, onde ocorrem cactos por entre matacões - rochas que afloram na superfície - são exceções paisagísticas que, muitas vezes, carecem de atenção e conservação.
Antes de mais nada, peço desculpas aos leitores pelo vazio que este blog experimentou em julho. Estive envolvido com outros projetos e a falta de tempo foi implacável com as atualizações semanais do "Viaduto". A partir de agora, a periodicidade dos textos volta ao normal.
Nada melhor que retomar o blog com um chamado para que os lugares sejam acessíveis a todas as pessoas. A busca pela segurança fantasiosa tem motivado o uso de catracas e de outros esdrúxulos impeditivos ao livre acesso, criando barreiras cada vez mais difíceis de transpor, sobretudo para aqueles que são discriminados cotidianamente. Se não bastasse o irreal controle nos lugares privados, a prática de inibir o acesso vem sendo disseminada também nos espaços públicos, em especial nas universidades, lugares onde a convivência deveria ser facilitada para o bem da produção do conhecimento.
A catraca seleciona, ainda, aqueles que podem pagar pelo oneroso transporte público urbano, barrando os desempregados e os trabalhadores que não reúnem as condições materiais necessárias para consumir o espaço em iguais condições com os que podem se locomover com maior rapidez.
Por quantas catracas você passa todos os dias? A resposta pode estar diretamente relacionada com as suas possibilidades de participar do mundo, de consumir e de produzir os lugares.
O mundo global possibilita uma circulação de mercadorias jamais vista na história da humanidade. Produtos de diversas nacionalidades estão expostos nas vitrines, muitas vezes trazendo em suas embalagens informações escritas em dois ou mais idiomas. Sem notar, usamos tênis fabricados na China, andamos em veículos produzidos na Argentina, carregamos bolsas costuradas em Taiwan. O processo mundial que proporciona o consumo de produtos multinacionais também cria uma perversa divisão internacional do trabalho. Explora-se a mão de obra barata, quando não escrava, dos países empobrecidos a troco de migalhas. Um sapato costurado a custo pífio por um indiano é exportado, recebe uma marca e, assim, tem o seu valor multiplicado exorbitantemente. Um exemplo disto está no blog "Sentir por Escrito", da amiga Juliana, num texto sobre o eventual processo de produção de uma grife mundial de sapatos femininos, a Catwalk. Outros casos também são muito bem evidenciados no excelente documentário canadense "A Corporação", onde as práticas das grandes empresas são analisadas (assista o trailer em inglês após o texto).
Os contêiners carregam consigo a vida daqueles lugares cujo papel no mundo globalizado está restrito a produzir bens de consumo a custos irrisórios, arcando com desastres sociais e ambientais diversos, em prol do consumismo desenfreado dos países ricos. Ao consumir um produto destes, nós estamos, também, participando da produção de um lugar onde, muitas vezes, sequer pisamos uma só vez.
Cada vez mais lugares são invadidos pelo processo de desertificação verde causado pela insensatez das compulsivas exportações de commodities a preços módicos. As culturas de cana-de-açúcar e eucalipto são os principais emblemas da violência do poder privado no campo brasileiro, pois, além de causarem diversos desastres naturais, estas plantações, em especial a de cana, abrigam a maior parte do trabalho escravo no país, segundo recente pesquisa da Comissão Pastoral da Terra. Enquanto isso, a produção de etanol é comemorada pelo Estado brasileiro como um grande avanço no sentido de proporcionar a fabricação de biocombustíveis menos poluentes e socialmente mais justos. O discurso é construído para justificar o avanço irresponsável da cana-de-açúcar sobre os solos mais férteis do país, como a terra roxa, e, também, em direção aos resquícios dos biomas ainda conservados do país. O mesmo ocorre com as plantações de eucalipto, que devastam as florestas tropicais e apropriam-se de extensas áreas, impossibilitando a diversidade de outras formas de vida nestes ambientes. Incentiva-se a produção de etanol para movimentar as insustentáveis frotas de veículos particulares que tornam a vida nas grandes cidades quase impraticável. Em suma, as ações hegemônicas engendradas nos grandes centros urbanos determinam os usos que ocorrem no espaço agrário brasileiro e, assim, os lugares são produzidos sob uma lógica imposta, alheia à principal finalidade da terra como celeiro da vida, marginalizando, portanto, aqueles que insistem em produzir o alimento que chega às nossas mesas.
Trabalhadores rurais manifestam o seu descontentamento com relação ao avanço gradual das plantações de eucalipto que se apropriam das áreas que seriam melhor aproveitadas para a produção de alimentos. Esta cultura é responsável por dizimar a biodiversidade das áreas antes florestadas e recebe, absurdamente, a denominação de "reflorestamento".
O cruzamento dos fios denuncia o emaranhar dos lugares que, cada vez mais, estão conectados uns aos outros. O apertar do interruptor de luz é capaz de gerar impactos em lugares longínquos. A energia elétrica permite acessar outros lugares por meio da televisão e do computador. As palavras deste blog perdem-se na imensidão de uma rede de computadores e podem ser lidas em diferentes partes do mundo. Os mais diversos fluxos de pessoas, mercadorias, dinheiro, enfim, formam redes articuladas, verdadeiras constelações de pontos ligados entre si, numa teia global de ações humanas. Contudo, há lugares onde estas redes insistem em não chegar. No Brasil, mesmo no estado mais rico da federação, São Paulo, há pedaços do território desprovidos de energia elétrica, estradas, telefone, saneamento básico, educação, ou seja, lugares desligados do mundo, espaços opacos. Nestes lugares, onde os fios que se cruzam são apenas os de varais, vive uma população bem maior do que a da cidade de São Paulo. Apenas os que não têm luz em casa somam mais de 12 milhões de brasileiros, segundo o IBGE (2000). É evidente, portanto, que a tal globalização inclui lugares selecionados enquanto exclui perversamente os demais. Enquanto isso, uma outra rede, a dos excluídos, vai sendo arquitetada a partir dos interstícios e, com ela, nasce uma outra globalização fundamentada na força dos lugares marginalizados.
O campinho de futebol deu lugar a um edifício de treze andares e, assim, o tradicional jogo das tardes de domingo deixou de ser. Havia tantos times, todos devidamente uniformizados, que foi preciso organizar um campeonato entre as ruas do bairro. Do barranco na lateral do campo assistia-se a partida enquanto discutia-se o cotidiano do lugar. Desde a morte do campinho, o bar da esquina assumiu o papel de ponto de encontro, com a desvantagem que ali é preciso gastar algum dinheiro para poder conversar com os amigos e assistir a partida de futebol na televisão. Alguns ainda aparecem com os antigos uniformes dos times de futebol das ruas, tentanto, talvez, preservar alguma rivalidade. Porém, já são muitos aqueles que ostentam as camisas dos clubes de futebol que duelam em jogos televisionados nas tardes de domingo. Quando o dinheiro dá, a turma toda vai até o Pacaembu ver alguma partida. Outras vezes, faz uma vaquinha para alugar alguma quadra de cimento durante uma hora. Porém, na maior parte do tempo eles ficam ali, sentados ao redor da mesa de ferro do bar, saudosistas, bebendo cerveja e falando sobre as antigas partidas de futebol que aconteciam no campinho do bairro. Assim, vão envelhecendo as testemunhas de um outro lugar que existiu no bairro do presente.
Campo de futebol do bairro do Tucuruvi, na cidade de São Paulo, na década de 1960, onde hoje encontra-se a estação Tucuruvi do metrô. Acervo de Alfredo Dias Jr.
A foto de autoria de Cassimano evidencia como os lugares são selecionados na cidade, produzindo o espaço. Já tratamos brevemente sobre isto no "post" sobre gentrificação. Há quem aplauda aqueles que moram bem às custas dos que são condenados a viver em lugares propensos a inundações, erosões e, se não bastasse, desprovidos de infra-estruturas urbanas elementares. Enquanto o morador do prédio reclama da rua esburacada, o habitante da favela queixa-se, inutilmente, da falta de pavimentação no bairro todo. A perversidade produz os lugares e, assim, quando a favela ocupar o lugar provável da reprodução do capital, os seus respectivos habitantes serão expulsos pelo Estado e ali serão erguidos edifícios e contruídas ruas pavimentadas, distribuição de água tratada, enfim, tudo aquilo que era negado àqueles que, contraditoriamente , são recrutados para trabalhar na construção destes novos lugares e habitam os territórios ainda desinteressantes ao mercado imobiliário.
Eu pedi aos falantes alunos da oitava série que ficassem em silêncio por apenas um minuto. Do alto da Pedra Grande, no Parque da Cantareira, a paisagem da cidade de São Paulo perdia-se no horizonte. Estávamos ali, eu e os alunos, calados, sentados sob uma rocha granítica e rodeados pela mata atlântica. Uns olhavam desesperadamente o relógio, outros estavam com os olhos fechados quando, enfim, o minuto acabou. Então, o que vocês ouviram, perguntei a eles. A resposta da maioria foi enfática: nada!
O cantar dos pássaros, o sopro do vento chacoalhando as árvores não eram audíveis para a maioria dos alunos acostumada a perceber cotidianamente o barulho da cidade. Contei-lhes que era possível, inclusive, ouvir o ecoar distante da cidade, algo parecido com o som de uma geladeira, fruto da mistura dos barulhos urbanos. Curiosos, desta vez foram os alunos que tomaram a iniciativa da mudez. Ficaram ali, olhando fixamente a cidade, ouvindo sons roubados tão cedo e devolvidos por alguns instantes em outro lugar.
Havia onze anos desde o meu retorno de Luanda quando a sangrenta guerra civil angolana chegou ao fim com o assassinato de Jonas Savimbi, líder da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), ocorrido no dia 22 de fevereiro de 2002 na província de Moxico. Quando criança, fui testemunha dos vôos rasantes dos "MIG" russos sobre a cidade, dos mutilados pelas minas terrestres "zungando" pelas ruas e de outros fatos igualmente detestáveis que misturavam-se, contraditoriamente, com a simpatia do povo, com a rica cultura angolana, enfim, com o país encantador que inspirou as palavras de Agostinho Neto e Onjaki, entre outros escritores angolanos. Afinal, a guerra era um triste episódio no contexto de um lugar repleto de bons ensinamentos.
Com o término da extensa guerra civil, a paz, finalmente, seria algo tangível no cotidiano do povo angolano. Entretanto, o sangue derramado pelos conflitos bélicos deu lugar às mortes causadas pela perversidade do capital. Uma nova guerra iniciou-se nas ruas de Luanda e em outros pontos de Angola, desta vez motivada pelo crescente abandono dos empobrecidos, intensificado desde o fim da guerra fria e reforçado com a entrada maciça de capital estrangeiro, sob a égide de uma paz inventada para atrair investimentos privados e servir, sobretudo, à reprodução inconsequente do capital.
Enquanto a quase totalidade da população está condenada a viver em musseques miseráveis - casas precárias desprovidas de infraestruturas básicas - sem energia elétrica, carentes de saneamento básico, alimentação, saúde, enfim, destituídos das condições elementares de sobrevivência, arranha-céus são erguidos exaustivamente na vizinhança, evidenciando a expressiva quantidade de dinheiro em circulação no país.
O excelente blog Safú de Makelapublicou recentemente uma análise sobre as críticas dirigidas pelo Jornal de Angola ao músico irlandês e ativistaBobGeldof após declarações deste denunciando as desigualdades sociais às quais o povo angolano está submetido enquanto uma parcela pífia da população desfruta de condições materiais sofisticadas.
O discurso que referenda a vizinhança entre musseques e arranha-céus é o mesmo utilizado nos demais países empobrecidos do mundo e, quiçá, provém dos mesmos grupos econômicosatuantes nestes. Os lugares são selecionados e apropriados pelo capital segundo uma lógica atroz, tão letal quanto as mais cruéis guerras armadas. Angola vive hoje uma guerra silenciosa, camuflada pelo discurso apaziguador das elites e fundada na globalização que está em curso no atual momento histórico. "Bwamoxitwondobangaibakuyambote" - juntos, faremos criações boas - no idioma falado em boa parte dos musseques, no lugar onde reside a esperança da invenção de um outro mundo, de uma outra globalização, conforme nos ensinou Milton Santos.
Aglomeração de carros na Avenida dos Combatentes, em Luanda. Cada vez mais automóveis particulares ocupam as ruas da cidade, denunciando a crescente produção de riqueza vivenciada no país, em especial no pós-guerra civil angolana. O transporte público - vans azuis denomindas "candongas" - é precário e irregular.
O que faz um edifício ser condenado ao abandono numa cidade onde faltam habitações para uma enorme e crescente parcela da população? O centro velho de São Paulo, onde está localizado este prédio, é o destino da gente que foi despejada nas periferias da cidade e que enfrenta 4 ou mais horas a bordo de um péssimo e caro transporte público para chegar ao trabalho. Além de distantes, estas periferias estão localizadas nas terras desinteressantes para o mercado imobiliário, isto é, nas planícies de inundação de rios que sofrem com sucessivos alagamentos ou em vertentes sujeitas a intensos processos erosivos. Enquanto isso, prédios desocupados povoam a paisagem do centro urbano e o Estado lança mão de políticas públicas de "revitalização", impedindo os empobrecidos de ocuparem estes edifícios e incentivando a instalação de grandes empresas e objetos de luxo no lugar. Pontes estaiadas, túneis e viadutos são construídos para dar fluidez aos carros ao passo que o transporte público, aquele mesmo que cumpre a função de levar a gente das periferias para o centro, torna-se cada vez mais lento. Está instalada, portanto, a política da gentrificação - aquela onde as pessoas são expulsas das áreas centrais em prol do capital privado - e os engarrafamentos dos carros surgem como tema novo quando, na verdade, os empobrecidos das periferias sofrem há décadas com a perversidade dos que planejam a cidade exclusivamente para atender aos interesses dos agentes sociais hegemônicos.