Bate-papo

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Quantos lugares cabem dentro de um contêiner?

O mundo global possibilita uma circulação de mercadorias jamais vista na história da humanidade. Produtos de diversas nacionalidades estão expostos nas vitrines, muitas vezes trazendo em suas embalagens informações escritas em dois ou mais idiomas. Sem notar, usamos tênis fabricados na China, andamos em veículos produzidos na Argentina, carregamos bolsas costuradas em Taiwan. O processo mundial que proporciona o consumo de produtos multinacionais também cria uma perversa divisão internacional do trabalho. Explora-se a mão de obra barata, quando não escrava, dos países empobrecidos a troco de migalhas. Um sapato costurado a custo pífio por um indiano é exportado, recebe uma marca e, assim, tem o seu valor multiplicado exorbitantemente. Um exemplo disto está no blog "Sentir por Escrito", da amiga Juliana, num texto sobre o eventual processo de produção de uma grife mundial de sapatos femininos, a Catwalk. Outros casos também são muito bem evidenciados no excelente documentário canadense "A Corporação", onde as práticas das grandes empresas são analisadas (assista o trailer em inglês após o texto).
Os contêiners carregam consigo a vida daqueles lugares cujo papel no mundo globalizado está restrito a produzir bens de consumo a custos irrisórios, arcando com desastres sociais e ambientais diversos, em prol do consumismo desenfreado dos países ricos. Ao consumir um produto destes, nós estamos, também, participando da produção de um lugar onde, muitas vezes, sequer pisamos uma só vez.
TRAILER "THE CORPORATION" - "A Corporação"

O emaranhar dos lugares

O cruzamento dos fios denuncia o emaranhar dos lugares que, cada vez mais, estão conectados uns aos outros. O apertar do interruptor de luz é capaz de gerar impactos em lugares longínquos. A energia elétrica permite acessar outros lugares por meio da televisão e do computador. As palavras deste blog perdem-se na imensidão de uma rede de computadores e podem ser lidas em diferentes partes do mundo. Os mais diversos fluxos de pessoas, mercadorias, dinheiro, enfim, formam redes articuladas, verdadeiras constelações de pontos ligados entre si, numa teia global de ações humanas. Contudo, há lugares onde estas redes insistem em não chegar. No Brasil, mesmo no estado mais rico da federação, São Paulo, há pedaços do território desprovidos de energia elétrica, estradas, telefone, saneamento básico, educação, ou seja, lugares desligados do mundo, espaços opacos. Nestes lugares, onde os fios que se cruzam são apenas os de varais, vive uma população bem maior do que a da cidade de São Paulo. Apenas os que não têm luz em casa somam mais de 12 milhões de brasileiros, segundo o IBGE (2000). É evidente, portanto, que a tal globalização inclui lugares selecionados enquanto exclui perversamente os demais. Enquanto isso, uma outra rede, a dos excluídos, vai sendo arquitetada a partir dos interstícios e, com ela, nasce uma outra globalização fundamentada na força dos lugares marginalizados.